Preocupação, popularmente, é considerado algo que nos traz um peso, algo que devemos saber adminstrar e, para muitos, algo que nem deveríamos ter... Quero me referir aqui a um sentido mais amplo de preocupação.Segundo D. W. Winnicott, psiquiatra e psicanalista inglês, a preocupação "indica o fato do indivíduo se importar, ou valorizar, e tanto sentir como aceitar responsabilidade"... Dessa forma podemos dizer que é um sinal de saúde psíquica.
Na linha do desenvolvimento do indivíduo, a culpa implica um certo grau de integração do ego, o que significa que o indivíduo que é capaz de sentir culpa, também é capaz de reter experiências positivas em relação aos objetos de relação, ao mesmo tempo que pode ter a idéia de destruição dos mesmos objetos. A preocupação implica uma maior integração e crescimento, relacionando-se com o senso de responsabilidade.
No início da vida, um bebê existe, sem saber exatamente quem ou o que é. Os cuidados dispensados a ele, a qualidade deste cuidado e do ambiente entorno vão delineando este saber, ao mesmo tempo em que o mundo vai se construindo dia-a-dia para este bebê.
Ao mesmo tempo, este bebê, que está iniciando sua jornada na vida, e que ainda não sabe-se a si mesmo, mas que desde sempre tem um funcionamento biológico que o coloca em relação com o mundo, tem como primeiras notícias de si mesmo um emaranhado de sensações dadas pelo próprio corpo, e que vão sendo decodificadas pelo ambiente em que vive, tendo papel fundamental neste ambiente, a mãe comum, devotada ao seu bebê.
Se tudo vai bem, podemos dizer que, conforme ele vai amadurecendo, o bebê vai discernindo o que é ele e o que é o outro, o que inicialmente seria impossível. E desta maneira, vai paulatinamente entendendo que existem coisas que estão dentro dele (sentimentos, sensações), e outras que estão fora, no mundo.Ao mesmo tempo, este reconhecimento confere a este novo ser a possibilidade de agir cada vez mais consciente, sobre aquilo que está dentro e fora de si mesmo. E ainda, que suas ações geram consequências, e que estas serão sofridas por ele e/ou pelo outro.
Quando o bebê chega a essa etapa evolutiva, já pode se tornar capaz de sentir-se culpado/preocupado. E tenderá a desenvolver maneiras de "resolver" essa culpa, se a ansiedade a ela associadas forem superáveis. Será capaz de reparar o "dano" que suas ações geraram, de maneira restitutiva, ao mesmo tempo que aguarda que o mundo possa estar preparado para receber seu gesto restitutivo - o perdão.
Porém, quando essas ansiedades são superlativas, podemos esperar dificuldades neste agir-no-mundo, pois a culpa não pode ser suportada e transformada em preocupação/responsabilidade. Serão vividas como ameaças, e portanto, gerando a necessidade de outros mecanismos para lidar com a culpa. O bebê pode se tornar retraído, prevenido, ou tão adaptativo que falta-lhe a espontâneidade.É importante considerar tais condições da relação mãe-bebê, seja na condição de profissionais (médicos, psicólogos, etc), seja na condição de colaboradores (babás, avós, titias, etc) e principalmente que a própria mãe esteja atenta aos fatores intervenientes na sua relação com o bebê, para que possa formar-se um ambiente psíquico favorável ao desenvolvimento pleno do bebê.
É importante também que saibamos de que maneira carregamos esta construção no decorrer dos anos, tornando-nos adultos que lidam com a culpa e a preocupação de maneiras peculiares, que nos auxiliam ou nos dificultam a existência. Certamente seremos mais felizes se soubermos lidar com a culpa livre de ansiedades persecutórias, transformando-a sempre em polo gerador de aprendizagem, cultivando a responsabilidade como produto de uma relação intensa e produtiva com a realidade.






