segunda-feira, 19 de março de 2012

Culpa e Preocupação



Preocupação, popularmente, é considerado algo que nos traz um peso, algo que devemos saber adminstrar e, para muitos, algo que nem deveríamos ter... Quero me referir aqui a um sentido mais amplo de preocupação.

Segundo D. W. Winnicott, psiquiatra e psicanalista inglês, a preocupação "indica o fato do indivíduo se importar, ou valorizar, e tanto sentir como aceitar responsabilidade"...  Dessa forma podemos dizer que é um sinal de saúde psíquica.

Na linha do desenvolvimento do indivíduo, a culpa implica um certo grau de integração do ego, o que significa que o indivíduo que é capaz de sentir culpa, também é capaz de reter experiências positivas em relação aos objetos de relação, ao mesmo tempo que pode ter a idéia de destruição dos mesmos objetos. A preocupação implica uma maior integração e crescimento, relacionando-se com o senso de responsabilidade.

No início da vida, um bebê existe, sem saber exatamente quem ou o que é. Os cuidados dispensados a ele, a qualidade deste cuidado e do ambiente entorno vão delineando este saber, ao mesmo tempo em que o mundo vai se construindo dia-a-dia para este bebê.

Ao mesmo tempo, este bebê, que está iniciando sua jornada na vida, e que ainda não sabe-se a si mesmo, mas que desde sempre tem um funcionamento biológico que o coloca em relação com o mundo, tem como primeiras notícias de si mesmo um emaranhado de sensações dadas pelo próprio corpo, e que vão sendo decodificadas pelo ambiente em que vive, tendo papel fundamental neste ambiente, a mãe comum, devotada ao seu bebê.

Se tudo vai bem, podemos dizer que, conforme ele vai amadurecendo, o bebê vai discernindo o que é ele e o que é o outro, o que inicialmente seria impossível. E desta maneira, vai paulatinamente entendendo que existem coisas que estão dentro dele (sentimentos, sensações), e outras que estão fora, no mundo.

Ao mesmo tempo, este reconhecimento confere a este novo ser a possibilidade de agir cada vez mais consciente, sobre aquilo que está dentro e fora de si mesmo. E ainda, que suas ações geram consequências, e que estas serão sofridas por ele e/ou pelo outro.

Quando o bebê chega a essa etapa evolutiva, já pode se tornar capaz de sentir-se culpado/preocupado. E tenderá a desenvolver maneiras de "resolver" essa culpa, se a ansiedade a ela associadas forem superáveis. Será capaz de reparar o "dano" que suas ações geraram, de maneira restitutiva, ao mesmo tempo que aguarda que o mundo possa estar preparado para receber seu gesto restitutivo - o perdão.

Porém, quando essas ansiedades são superlativas, podemos esperar dificuldades neste agir-no-mundo, pois a culpa não pode ser suportada e transformada em preocupação/responsabilidade. Serão vividas como ameaças, e portanto, gerando a necessidade de outros mecanismos para lidar com a culpa. O bebê pode se tornar retraído, prevenido, ou tão adaptativo que falta-lhe a espontâneidade.

É importante considerar tais condições da relação mãe-bebê, seja na condição de profissionais (médicos, psicólogos, etc), seja na condição de colaboradores (babás, avós, titias, etc) e principalmente que a própria mãe esteja atenta aos fatores intervenientes na sua relação com o bebê, para que possa formar-se um ambiente psíquico favorável ao desenvolvimento pleno do bebê.

É importante também que saibamos de que maneira carregamos esta construção no decorrer dos anos, tornando-nos adultos que lidam com a culpa e a preocupação de maneiras peculiares, que nos auxiliam ou nos dificultam a existência. Certamente seremos mais felizes se soubermos lidar com a culpa livre de ansiedades persecutórias, transformando-a sempre em polo gerador de aprendizagem, cultivando a responsabilidade como produto de uma relação intensa e produtiva com a realidade.



sexta-feira, 16 de março de 2012

Quero colhê-las!


Este texto, abaixo transcrito, é um dos diversos textos presentes no livro: "Pedagogia do Bom Senso" de Célestin Freinet, Educador francês, que fundou sua própria escola um pouco antes do início da 2ª Guerra Mundial.

Relembro este educador neste momento, para trazer à tona a questão do prazer de aprender e sua relação com o poder institucional. Seja no âmbito escolar, ou familiar, ou mesmo social, esta realção estará sempre presente; e certamente, precisamos ter sempre em mente como estamos lidando com isso nas nossas realções cotidianas.

"Maria está debaixo da cerejeira. Tem diante dela, o cesto transbordante de cerejas brilhantes e vermelhas. Bastaria mergulhar nele a mãozinha para comer até se fartar; mas não está satisfeita!
- Quero colhê-las!
Teima em chegar aos poucos ramos simpáticos que parecem ter crescido de propósito ao alcance da cobiça da criança. E esta não é exigente! O menor fruto verde é para ela uma delícia. Foi ela quem colheu!
Eu lhe digo, com pena:
- Olha, Maria, aqui tem uma bonita!
Ela protesta mais uma vez, com paradoxal heroísmo, estendendo os braços para a folhagem:
- Quero colhê-las!
Duplo erro dos pedagogos:
Instalamos nossos alunos mais ou menos confortavelmente, à sombra da árvore, e pomos ao seu alcance os frutos que escolhemos e colhemos, bem classificados em livros que são obras-primas de ciência e de técnica. E admiramo-nos quando nossas Maria se afastam desses cestos apetitosos para estender as mãos e levantar os olhos para onde queriam colher os frutos, vivos mesmo, os frutos preciosos de um conhecimento que só é alimento sutil enquanto não for prévia e arbitrariamente separado da árvore.
E como não compreendemos aquela insistência da criança em complicar as coisas que nós mesmos havíamos preparado e facilitado, escondemos a árvore, para que a criança veja apenas os frutos no cesto e se satisfaça com eles. Efetivamente, à falta de melhor, a criança come então os frutos do cesto, mas tão vorazmente, que não consegue digeri-los; fica tão enjoada, que já não se sabe quem acusar, se a criança já sem fome nem sede, ou o método que, por si só, não pôde renovar o milagre da árvore cobiçada.
Infelizes as crianças que sempre só comeram cerejas dos cestos e não conheceram a alegria vivificante de quem se agarra aos ramos e colhe conforme sua necessidade!
Infeliz a criança, infeliz o homem farto de conhecimentos, longe da árvore da vida, e que já nem tem energia para protestar:
- Quero colhê-las!"

in "Pedagogia do Bom Senso", Freinet, C. - 1ª edição brasileira de 1985.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Que Dia da Mulher é esse?



O Dia Internacional da Mulher, celebrado a 8 de março, tem como origem as manifestações das mulheres russas por melhores condições de vida e trabalho e contra a entrada do seu país na Primeira Guerra Mundial. Essas maniefestações marcaram o início da REvolução de 1917. Entretanto, a idéia de celebrar um dia da mulher já havia surgido desde os primeiros anos do século XX, nos EUa e na Eurpoa, no contexto das lutas das mulheres por melhres condições de vida e trabalho, bem como pelo direito de voto. (Wikipédia)



Certamente este sentido original de "Dia da Mulher" já se perdeu, apesar de ainda haver discriminação, apesar de ainda haver violência ... Na época em que surgiu essa data,  lutava-se pela sobrevivência à opressão, e a data nada tinha de comemorativa. Porém, a atualidade nos mostra hoje outro tipo de opressão, talvez mais silencioso, mas não menos perigoso, que é a opressão do ego...  
Parece-me que hoje cada um luta por si mesmo, mulheres e homens, lutam pelos próprios interesses, perdendo o sentido do bem coletivo, criando o caos sócio-emocional em que vivemos. Nada importa, desde que EU esteja bem. Luta-se, talvez ainda mais do que no início do século XX, contra o pior inimigo que poderíamos ter: nós mesmos.
Não queremos viver a solidão, não queremos o isolamento, não queremos a dor, não queremos dificuldades, porém produzimos isso tudo, constantemente, através de uma conduta quase paranóica, tentando preservar as migalhas de auto-estima sobreviventes a essas relações egóicas... Somos o paradoxo do que não desejávamos para nós!
Saída? Sim... Compreendermos que, enquanto houver discriminação pelo cheiro, cor, tipo, posição, idéias, opiniões, traremos essa cisão dentro de cada um, e que olhar para o outro com generosidade, fará encontrarmos dentro de nós um novo alguém, que sabe apreciar o diferente e por ele se encantar, sem sentir que perde-se algo com isso, ao contrário, é o resgate do bem coletivo, de que todos nós somos órfãos...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ser mãe: O bebê e a integridade de si


Conhecimento mútuo
Ainda no ventre materno o bebê já é um ser humano distinto de qualquer outro ser humano.
A mãe, gerando-o dentro de si, aprende a conhecê-lo através de sua movimentação e de sua quietude, de seu crescimento, das sensações viscerais durante a gravidez... Podemos pensar também que o bebê conhece sua mãe (e como conhece) através de sua movimentação, alimentação, emoções traduzidas na circulação sanguínea, nas batidas do coração, nas modulações de voz que pode ouvir de dentro do útero...

A mãe suficientemente boa
O bebê já tem inúmeras experiências que enriquecem sua pequena e recente existência, sejam agradáveis ou desagradáveis, antes mesmo de "vir ao mundo". Este novo ser traz em si todo um potencial para desenvolver-se no mundo, e para isso necessitará de uma pessoa especialmente inclinada a fazer com que este potencial se desenvolva de maneira saudável. Normalmente esta pessoa é a mãe (que chamamos de mãe suficientemente boa) preparada durante toda a gestação de maneira natural e gradual, fazendo com que o mundo vá tomando um segundo lugar em seus pensamentos e preocupações e desloque todo seu interesse do exterior para o interior de si.

O sentido de continuidade de si
Desde os primeiros minutos do nascimento, o bebê e sua mãe estão aptos a se conhecerem mais profundamente, se ambos estiverem bem. Para o bebê, a presença da mãe vai lhe trazendo um sentido de continuidade de si mesmo, não interrompida pelo advento do nascimento. Nesta fase, se tudo vai bem, o bebê percebe a mãe como fazendo parte dele mesmo. A mãe, por sua vez, compreendendo a necessidade deste novo ser, e pode permitir-se ser criada pelo bebê, ou seja, adaptar-se ativamente às necessidades do bebê, procurando não criar um padrão invasivo. Temos então que a qualidade da presença da mãe, através de seus cuidados (maternagem) é fundamental para que o bebê ponha em marcha seu potencial de desenvolvimento.

A ilusão de onipotência e a capacidade criativa
Esta ligação entre ambos, vivenciada através da sustentação ofertada pela mãe, possibilita ao bebê a ilusão de que o mundo é criado por ele.   Então, para o bebê, é como se os cuidados dispensados a ele em forma de sustentação, alimentação e higiene aparecessem, como uma ilusão, quando seus impulsos surgissem. Esta experiência de ilusão, que chamamos de onipotente, fornece a base do potencial ativo e criativo do viver. É esta experiência de Ser que irá permitir que o bebê vá aos poucos criando uma individualidade, até que atinja o status de ser um Eu, reconhecendo então um Não-Eu.

Interferência nesta fase do desenvolvimento
A ausência de um ambiente suficientemente bom e de uma mãe suficientemente boa pode propiciar ao bebê falhas no seu desenvolvimento, criando uma percepção precoce e persecutória do mundo. É como se as coisas do mundo chegassem ao bebê antes mesmo que pudesse ter o sentimento de ser alguém. Uma ameaça à possibilidade de ser si mesmo. Isto tudo pode gerar angústias no bebê, forçando-o a reagir a uma situação, antes mesmo que possa agir.

Vários são os fatores a se observar quando queremos compreender as interferências que ocorrem no processo de denvolvimento nesta fase da vida: o estado emocional da mãe; qual a história dela com este bebê; a saúde física e mental do bebê; como está organizado o ambiente em torno do par mãe-bebê; qual a qualidade do suporte emocional dado pelo ambiente à mãe; quais ansiedades e angústias estão presentes na mãe e/ou no ambiente que interferem no trato com o bebê; quais as fantasias da mãe em relação à maternagem e ao relacionamento com o bebê; dentre outros. A amamentação também pode, muitas vezes, tornar-se um indicador de como estão caminhando as coisas com o bebê. A isto dedicarei um próximo artigo desta série: Ser mãe.

Primeiro, é preciso Ser.
A capacidade criativa será a base que irá permitir, mais tarde, que a criança desenvolva um sentido de si e que sejam suportáveis as desilusões e frustrações, reconhecendo a potência limitada, substituindo a onipotência original. Tal capacidade é também o instrumento que permitirá uma adaptação não submissa do indivíduo ao meio, permitilndo-lha manter o sentimento de  ser a si mesmo nas interações com o mundo, garantindo-lhe a integridade do que temos como mais íntimo e pessoal: nosso Self.



As idéias relativas a este texto remetem-se à Teoria do Desenvolvimento Psíquico de D. W. Winnicott

sábado, 3 de setembro de 2011

Ser mãe


O Dr. D. W. Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, diz que "todo indivíduo mentalmente são, todo aquele que se sente como uma pessoa no mundo e para quem o mundo significa alguma coisa, toda pessoa feliz, está em infinito débito com uma mulher".

A maternagem é devoção, não como um ato de sacrifício, ou qualquer coisa que o valha, mas no sentido de poder a mãe exercer uma devoção comum, de quem sabe e compreende as necessidades de seu bebê, que possue uma inclinação natural para saber o que se passa com seu filho e para agir em relação a ele. Quero dizer que isto é um processo natural, que acontece intuitivamente, e assim deve ser.

Em toda relação da uma mãe com seu bebê, isso será fundamental, pois garantirá que tudo o que acontecer entre eles será experienciado como algo natural e genuíno.

Lembremos que existem, naturalmente, coisas que são intuídas, enquanto outras precisam ser aprendidas. E a mãe deve estar muito à vontade para saber quando necessita de ajuda, seja do companheiro (que zela pela manutenção da estabilidade do ambiente em torno dela e do bebê), seja de alguém de suas relações pessoais ou parentais (mãe, avó, irmã, amiga) ou de algum profissional.

Digamos que é fundamental para a saúde de seu bebê que a mãe conserve o gesto espontâneo ao cuidar dele, para que não se perca em meio a sugestões, informações, conselhos, orientações, a se mesclarem com os seus próprios sentimentos e intuições.

Este "saber" materno, que existe simplesmente porque é próprio do "ser mãe" não pode se perder. É a partir dessa consistência materna que o bebê irá consolidar-se como um Ser, mesmo que ele só se dê conta disso algum tempo depois de seu nascimento.

Resumindo, quando tudo correr bem, a mãe será quem melhor pode cuidar de seu bebê, pois já foi preparada naturalmente, durante nove meses, para isto. A mãe "suficientemente boa" irá adaptar-se perfeitamente às necessidades do bebê. O bebê, de acordo com sua capacidade de elaboração imaginativa, sente como se a mãe fosse ele mesmo, alimentando o sentido de confiança na vida, no mundo, no existir...

Porém, nem sempre as condições favoráveis estão presentes. Aspectos relacionados com condições de saúde psíquica, de um ou outro, ou mesmo do ambiente, podem comprometer o desenvolvimento saudável do recém nascido. Os fatores e condições que tornam-se alvo de investigação são múltiplos, mas todos igualmente importantes no processo de ressignificação daquilo que ficou estacionado no desenvolvimento.

Assim, se a falha se dá neste momento inicial da vida, quando o bebê ainda não diferencia-se de sua mãe, ele deverá desenvolver-se com o sentimento desesperança de encontrar no mundo algo que dê sentido para sua existência, como se lhe faltasse algo de si mesmo para poder viver no mundo.

A falha nesta etapa da vida remete-se à sensação de abandono, de ter sido deixado sozinho por um período maior do que o bebê seria capaz de suportar e de manter viva a imagem da mãe em si mesmo. Poderíamos então pensar num bebê para quem o mundo é uma constante ameaça de "cair no nada", experimentando angústias de aniquilação de si mesmo.  E, se nada for feito, podemos imaginar um adulto que mantem-se indiferente à vida, ao humano, ao existir.

Portanto, se neste momento inicial de uma relação saudável do par mãe-bebê, a mãe permanece naturalmente voltada para seu bebê, acreditando naquilo que deve fazer, tendo o suporte externo de alguém que a compreenda (normalmente o companheiro), sendo protegida de excessivas perturbações e preocupações, podendo contar com auxílio externo se assim achar necessário, sendo capaz de identificar-se com as necessidades do bebê e atendê-las de maneira natural e devotada, tudo isso possibilitará ao bebê fazer brotar de si mesmo uma noção de continuidade do Ser.

Graças a uma mãe e um ambiente suficientemente bons, capazes de oferecer as condições fundamentais e necessárias ao desenvolvimento psíquico do bebê, ele poderá trilhar o caminho da saúde .


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As idéias relativas a este texto remetem-se à Teoria do Desenvolvimento Psíquico de D. W. Winnicott

sábado, 11 de junho de 2011

Educação ou Deseducação?

Estudante é suspensa no Rio após colocar lição no Facebook



A notícia da Folha de São Paulo, de 11 de junho de 2011, me faz pensar em algumas questões que não se mostram tão evidentes em situações cotidianas no ambiente "educacional" da atualidade.
Me parece que, ao lado da questão do uso da tecnologia por alunos, por professores, pela escola, ou no sistema educacional, existe uma outra questão, não menos importante, e talvez mais profunda, que é a questão do exercício do poder na relação com o conhecimento. Nosso sistema educacional ainda está pautado numa relação em que o professor detém o conhecimento e o aluno é a "tábula-rasa" onde serão impressos os conhecimentos relevantes, selecionados por uma instituição que representa os valores que se pretende perpetuar para a manutenção do "status quo". Esse tipo de relação vertical não contempla o universo de conhecimento do aprendiz, e coloca a instituição escolar e seus representantes no lugar de um saber estático, que se impõe, como se estes não fossem também aprendizes eternos, como deveríamos nos colocar sempre que discutimos o processo educacional. Não é possível deter o progresso por decretos e punições, que mais deseducam e afastam a criança e o jovem do processo de ensino-aprendizagem. E, por fim, se a tecnologia é uma realidade irrefutável, que todos seus recursos possam ser absorvidos pelo sistema educacional, gerando um novo "modus vivendi" (que insinua uma acomodação na disputa entre partes para permitir vida em conjunto), ou seja, que a cultura da paz e da boa convivência seja a base para o desenvolvimento de novos saberes, que não está mais nas mãos de alguém que professa as verdades, mas de todos os envolvidos na relação ensino aprendizagem.

Andréa Tarazona, psicóloga, atuante nas áreas clínica e educacional.

Ler mais em http://folha.com/ct928707


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sexta-feira, 15 de abril de 2011

"Análise é para aqueles que a querem, necessitam e podem tolerá-la."

  "Advirto-te, seja quem fores...
Tu! Que desejas sondar os arcanos da Natureza,
se não encontras dentro de ti aquilo que procuras, tampouco o poderás encontrar fora.
Se ignoras as excelências da tua própria casa,
como poderás encontrar outras excelências?
Em ti se encontra oculto o tesouro dos tesouros!
Homem! 
Conhece-te a ti mesmo 
e conhecerás o Universo e os Deuses"


Mensagem inscrita nos pórticos do Templo de Apolo, Oráculo de Delphos

"O processo analítico reside na possibilidade de oferecer ao analisando a chance de uma "segunda vez", retomando processos traumatogênicos congelados no tempo e, então, aos poucos ir tornando as defesas desnecessárias, e abrindo espaço à emergência da criatividade que elas encobrem. Isto significa poder, através da transferência, refazer analíticamente os caminhos passados, possibilitando a passagem pela área da experiência de acontecimentos essenciais ao amadurecimento, que dela ficaram clivados na história original. Busca-se, com isso, possibilitar ao Self Verdadeiro vir a ter uma existência real.
Winnicott nos ensina a importância atribuída à regressão a um estado de dependência, ao longo do processo analítico, como forma de realizar essas retomadas. Através de uma relação terapêutica de suporte, deverá ser capaz de abrir espaço a regressões sucessivas do paciente, tornando desnecessária a função defensiva do falso self, para que o self verdadeiro - a singularidade do analisando - possa emergir e ir tomando forma, relativizando o falso self e relegando-o à posição funcional de mediação com o mundo social." (1)
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Este pequeno trecho escrito pelo psicanalista Alfredo N. Neto nos dá a dimensão do que pode vir a ser um processo analítico. Para que se dê os processos de descongelamento de traumas e situações limite, e para que as defesas possam se afrouxar a ponto de permitir que a transferência se estabeleça, é necessário tempo e disponibilidade do par analista-paciente. Entende-se, portanto, que não são todas as pessoas que se encontram disponíveis para serem analisadas. Aqueles que não toleram a demolição da fachada de sucesso, expressão do falso self, não terão sucesso na análise. Por este motivo, Winnicott nos deixa a seguinte reflexão:  "Análise é para aqueles que a querem, necessitam e podem tolerá-la."(2)
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Material consultado:
1. NAFFAH NETO, Alfredo. Winnicott: a psychoanalysis of the human experience of becoming. Nat. hum.,  São Paulo,  v. 7,  n. 2, dez.  2005 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-24302005000300005&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  15  abr.  2011.
2. D. W. Winnicott , "Os objetivos do tratamento psicanalítico", in O ambiente e os processos de maturação. (1962)

sábado, 9 de abril de 2011

Primeiro Espelho


O primeiro espelho da criatura humana é o rosto da mãe:
A sua expressão, o seu olhar, a sua voz.[...]
É como se o bebê pensasse:
Olho e sou visto, logo, existo!
D. W. Winnicott




Desde o estágio inicial do desenvolvimento emocional, somos paradoxais...

Completamente dependentes do ambiente e da provisão física da mãe, desde o útero; e independentes no sentido hereditário e de nossas tendências inata.

Assim, o ambiente não faz a criança, mas possibilita à criança concretizar seu potencial.

Ao longo de toda nossa vida levaremos esta experiência de, um dia, ver e termos sido vistos por um olhar que nos inaugurou, que nos tornou humanos, que nos imprimiu a possibilidade de seguirmos existindo.

A ausência ou falha significativa nesta fase, poderá levar-nos a renitente sensação de não termos iniciado nossa jornada humana, ou mesmo de não nos sentirmos autênticos em nossa vida. 

Desse modo é que existem pelo mundo aqueles que se sentem sub-existindo, ou sobre-vivendo, buscando ansiosamente por algo ou alguém que dê sentido à vida e possibilite a ele, enfim, existir...